Livro sobre Xadalu revela importância da arte urbana e contemporânea de Porto Alegre

 

 

Xadalu - Movimento Urbano - que será lançado em edição trilíngue, no dia 11 de abril, em Porto Alegre - traz um panorama da trajetória do artista Dione Martins, criador do personagem Xadalu e um dos mais atuantes artistas urbanos do Brasil

No dia 11 de abril, terça-feira, às 19h, na Casa de Cultura Mario Quintana, acontece o lançamento do livro Xadalu - Movimento Urbano, que contextualiza a obra de Dione Martins, um dos mais importantes artistas contemporâneos do Rio Grande do Sul, e cuja produção é bastante reconhecida na cena urbana local. Na ocasião, o artista vai realizar uma conversa com o público sobre seu processo criativo.

Em edição trilíngue - português, inglês e guarani - o livro aborda os dois grandes temas da trajetória do artista: a arte urbana e a arte por causa, representados, principalmente, pelo famoso personagem do indiozinho Xadalu, que estampa adesivos e cartazes espalhados nas grandes metrópoles e em mais de 60 países pelo mundo.

Desde o surgimento do indiozinho, em 2004, Dione adotou Xadalu como seu nome artístico e faz parte do cenário mundial da arte urbana contemporânea, realizando exposições e integrando acervos de museus e festivais. Por meio de seus stickers (adesivos), cartazes e fotografias, Xadalu repovoa os grandes centros urbanos com sua arte que denuncia, informa e conscientiza o público para as questões da causa indígena, da arte de rua e da organização do espaço urbano.

Foi ideia do próprio artista tornar o livro acessível na língua Guarani. Em seu texto no livro, Xadalu confessa: "Em cada aldeia por onde passo tento deixar um pedaço de meu coração. E no lugar desse vazio trago os amores e dores de uma cultura linda e sofrida, quase destruída, mas ainda resistente e persistente. Me sinto como o jabuti, o mensageiro que leva e traz a informação".

Além do depoimento de Dione, o livro traz textos de Vitor Mesquita, Francisco Dalcol, André Venzon, Patrícia Ferreira e Adauany Zimovski, que apresenta as séries de obras mais relevantes da carreira do artista. Os primeiros trabalhos mostram uma variedade de técnicas e já anunciam a expressividade e variedade de seu repertório visual. Destes, surgem os stickers (adesivos), e é através da linguagem da sticker art que Xadalu monta uma rede de trocas e intercâmbios (pelo correio e internet) com artistas e colaboradores, que ajudam a espalhar sua obras pelas cidades do mundo. A série de colagens e pinturas Elementos Urbanos é resultado de uma vivência urbana intensa, aliada a um olhar sensível para as particularidades da vida nas ruas. A série Área Indígena - cartazes e adesivos em forma de placas de sinalização, instalados nos espaços da zona central de Porto Alegre - denuncia o choque cultural entre índios e brancos. A presença indígena no centro da cidade desdobrou-se na série Seres Invisíveis - fotografias impressas em grande formato, coladas repetidamente em pontos estratégicos da Capital Gaúcha -, ampliando o debate sobre marginalização, preconceito e a invisibilidade indígena. Por fim, a série Fauna Guarani - pinturas em tons neon sobre papel, que representam os animais sagrados da cultura guarani e reconhecidos no artesanato em madeira produzidos pelos índios - alerta sobre os problemas sociais que afetam as comunidades indígenas e a natureza como um todo.

O livro reproduz também a transcrição de uma conversa entre Xadalu e Toniolo, artista pioneiro na arte urbana contemporânea de Porto Alegre, amigo e influente na carreira de Dione. A conversa é mediada pela produtora cultural Carla Joner, diretora geral do projeto.

Além de textos e imagens, a publicação traz um caderno pedagógico destinado ao público infanto-juvenil. Com a colaboração de Patrícia Ferreira (Kerexu) - moradora da Aldeia Mbya-Guarani Koenju (São Miguel das Missões/RS) e integrante do projeto "Vídeo nas Aldeias" - o caderno traz, além de páginas para colorir, o conceito de espacialidade, lugar, paisagem e sonho na perspectiva Guarani, propondo exercícios reflexivos a partir desses termos.

O caderno pedagógico será usado nas disciplinas de Educação Artística das escolas de quatro comunidades indígenas do Rio Grande do Sul - Aldeia Koenju (São Miguel das Missões), Aldeia Pindó Mirim (Itapuã, município de Viamão), Aldeia Nhundy (Águas Claras, no município de Viamão) e Aldeia Pindó Poty (bairro Lami, município de Porto Alegre) -, que receberão, ainda, a doação de 40% da tiragem dos livros. Essas aldeias terão permissão para vendê-los, possibilitando um incremento na geração de renda dessas comunidades.

Dessa forma, o livro possibilita o resgate e uma nova concepção sobre a arte e a cultura indígena, vistas de forma atual e desmistificada, tal qual a própria obra de Xadalu. A publicação também contribui para o entendimento do cenário artístico e histórico da arte urbana da cidade de Porto Alegre e promove, de forma inovadora e contemporânea, o resgate e a conscientização da cultura e arte indígena do Rio Grande do Sul através da arte, da educação e da informação.

O projeto é realizado pela Joner Produções com financiamento do Pró-Cultura-RS / FAC / Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do RS / Governo do Estado do Rio Grande do Sul e apoio da Gráfica Coan. Carla Joner, diretora geral do projeto, afirma que sua empresa tem orgulho em realizar um projeto que já nasce com a responsabilidade de contribuir para o entendimento do cenário artístico e histórico da arte urbana da cidade de Porto Alegre: "Quando fui procurada pelo artista para inscrever o projeto no edital do FAC/RS, aceitei de pronto esta parceria porque acredito que as realizações profissionais devem corresponder sempre aos nossos ideais. Xadalu está em pleno voo criativo, povoando ideias mobilizadoras em nossa urbe, instigando cotidianamente as pessoas a pensarem nas questões indígenas contemporâneas", diz Carla.

Além da publicação, um aplicativo com recurso de Realidade Aumentada está sendo desenvolvido para o projeto. Por meio de cartazes e adesivos colados em diversos pontos de Porto Alegre, os transeuntes poderão acessar um conteúdo virtual relacionado ao projeto e às redes sociais, usando smartphones ou tablets.

O livro estará disponível para download gratuito no site do artista (www.xadalu.com) e da Joner Produções (www.jonerproducoes.com.br).

Xadalu também vai realizar duas palestras no município de São Miguel das Missões/RS, em parceria com a Secretaria de Educação do município, em data a ser confirmada.

Dione Martins Luz (Xadalu)

Nasceu em Alegrete em 1985 e vive em Porto Alegre desde 1997, quando se mudou com sua avó e sua mãe para a vila São Vicente, mais conhecida como Complexo da Funil. No início, perambulava pelas ruas da Capital para recolher material reciclável, que garantia o sustento da casa. Depois, seu primeiro emprego foi como gari na Prefeitura de Porto Alegre, varrendo outras tantas ruas. "Em pouco tempo já estava íntimo das ruas e mal sabia que nunca mais iria conseguir viver sem elas. Essa mistura de periferia com asfalto (ruas) tornou empírico meu DNA marginal. Tanto a periferia quanto a rua, sinto elas como a extensão do meu corpo, fazem parte de mim", explica Xadalu em seu texto no livro.

 Seu primeiro contato com a serigrafia foi na Serigrafia Gaúcha, onde o proprietário, Antônio Castro, permitia que ele usasse os materiais e equipamentos para produzir suas primeiras obras. Nessa época, as aulas de história sobre a destruição da cultura indígena o inspiram profundamente. Por sugestão do amigo e também artista urbano Celo Pax, cria o personagem do indiozinho Xadalu e, em 2005, realiza a primeira colagem urbana, tendo como matriz artística seu trabalho serigráfico. Assim, disseminou a figura do indiozinho, que tornou-se uma das representações mais marcantes do imaginário porto-alegrense contemporâneo.

Seu conhecimento prático foi aperfeiçoado no curso de Publicidade e Propaganda, na Escola Técnica Estadual Irmão Pedro, bem como no Atelier Livre Xico Stockinger, da Prefeitura de Porto Alegre, e no Museu do Trabalho.

Em 2012 foi eleito Melhor Artista na Expo Colex, Mostra Internacional de Sticker Art em Santos/SP. Em 2014 ganhou o Prêmio Humanidades 2014 do Instituto Brasileiro da Pessoa, como homenagem pela defesa da causa indígena aliada às questões socioculturais deste tempo. Tem obras em acervos de instituições como o MARGS, MACRS e Memorial do Rio Grande do Sul.

Hoje, quando Xadalu não está envolvido com trabalhos sociais com os índios da aldeia no bairro do Lami, está trabalhando suas impressões artísticas em seu ateliê, localizado no Distrito Criativo da capital, ou colando sua arte pelas ruas e avenidas de Porto Alegre. http://www.xadalu.com/